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A partida do Francelino continua a doer num lugar onde as palavras não chegam. É uma perda que não se mede, que não se explica, que não se resolve. Não se acorda num domingo de planos tranquilos, de promessas de descanso espiritual, e descobre, de repente, que o mundo se partiu. Que a pessoa com quem se ia iniciar essa jornada deixou de ser presença e passou a ser memória — uma memória tão recente que ainda ameaça transformar-se em trauma.

Fica a impotência de não poder fazer nada. Fica a ausência de respostas. Fica a tristeza de não ter conseguido acompanhar até ao fim e a culpa — essa culpa injusta — de imaginar que se poderia ter feito mais, ou menos, ou diferente. É assim que a mente tenta negociar o irreparável.

Perdemos um homem raro. Um homem que se contentava com pouco, que ensinava com a generosidade de quem deseja ver os outros prosperar, que ria sem reservas, que nos brindava com o seu saber, com a sua escrita, com os seus sonhos grandes. Mas quando alguém se torna referência para muitos, as suas fragilidades tornam-se invisíveis. As dores escondem-se. A necessidade de apoio dissolve-se na ideia errada de que os fortes não precisam de colo.

São histórias que se repetem: pessoas que se calam para sempre porque o mundo insiste em esquecer que todos, sem exceção, somos seres sociais, interdependentes, vulneráveis. E que cuidar da saúde mental uns dos outros não é um gesto extraordinário — é uma responsabilidade humana.

O legado do Francelino não termina aqui. Continuará a ser levado a quem ainda o devia conhecer. E guardaremos, com a ternura que só o amor permite, a sua gargalhada desinibida, a sua presença luminosa, o seu jeito de transformar simplicidade em grandeza.

Assinado: A namorada

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