Foi um amor, um pai, um filho, um irmão, um amigo, um tio, um sobrinho, um colega — um ser humano inteiro — que partiu.
A ausência do Francelino continua a doer num lugar onde o consolo não chega. É uma perda que não se mede, que não se explica, que não se resolve. Não se acorda num domingo de planos tranquilos, de promessas de paz espiritual, para descobrir que, de repente, o mundo se partiu. A pessoa com quem se iniciaria essa jornada deixou de ser presença e tornou‑se memória — uma memória que se transformou em trauma.
Fica a impotência de nada poder fazer. Ficam as perguntas sem resposta. Fica a tristeza de não ter feito o impossível e a culpa — essa culpa injusta — de imaginar que se poderia ter feito mais, ou menos, ou de forma diferente. É assim que a mente tenta negociar o irreparável.
Perdemos um homem que, sendo comum, era raro. Um homem que se contentava com pouco, que ensinava com a generosidade de quem deseja ver os outros prosperar, que ria sem reservas, que partilhava o seu saber, a sua escrita, os seus sonhos grandes. Mas, quando alguém se torna referência para muitos, as suas fragilidades tornam‑se invisíveis. As dores escondem‑se. A necessidade de apoio dissolve‑se na ideia errada de que os fortes não precisam de colo. As exigências sociais elevam‑se a níveis impossíveis.
Estas histórias repetem‑se: pessoas que se calam para sempre porque o mundo insiste em esquecer que todos, sem exceção, somos seres sociais, interdependentes, vulneráveis. Cuidar da saúde mental uns dos outros não é um gesto extraordinário; é uma responsabilidade humana.
O legado do Francelino não termina aqui. Na condição de quem o acompanhou na sua última jornada, a última pessoa conhecida a estar com ele, a presença que lhe ofereceu o apoio de que necessitou e que agora carrega de perto este pesar — assumo como missão impedir que mais vidas se percam rodeadas de gente.
Foi em meio a este pesar que criei a Comunidade DESAPERTAR A TESE- LEITURAS QUE SALVAM, para apoiar raparigas estudantes na diáspora e que, em articulação com Associações de Estudantes em diferentes universidades, com as quais estou em contacto, trabalhemos para abranger ambos os géneros e reforçar o apoio emocional e social aos estudantes. Pretendemos também rastrear casos de vulnerabilidade e evitar que dificuldades académicas ou pessoais se transformem em sofrimento silencioso. Como Comunidade, tenho um grande sonho de estabelecer colaboração com os consulados, as nossas casas cá na diáspora, e outras entidades que se disponham a caminhar connosco para que as nossas intenções sejam concretizadas com a maior maleabilidade.
Os sonhos e o trabalho iniciados pelo Francelino continuarão a chegar a quem ainda o devia conhecer, embora de outra forma. Guardaremos, com a ternura que só o amor permite, a sua gargalhada desinibida, a sua presença luminosa, o seu talento para transformar simplicidade em grandeza.
A namorada