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AKAdemia - Vozes e Saber
Portugal

Comunicar “100 SOM”

Vivemos num mundo cada vez mais global, atravessado por uma fusão intensa de sons. Mas não são sons comuns: são sons que disputam espaço, atropelam a vez, ignoram o direito do outro.
Sons da pressão.
Sons da competição.
Sons da animação.
Sons de uma fusão tão densa que alguns se tornam ensurdecedores — ecos que se repetem até perderem forma.

À medida que esses sons se acumulam, formam um nevoeiro invisível que envolve o quotidiano. É um ruído que não se vê, mas pesa: pesa nos ombros, na respiração, na tentativa de existir num mundo que, por vezes, parece pequeno demais para tanta exigência.

Quando o mundo se torna barulhento demais, o silêncio deixa de ser ausência: torna‑se abrigo, necessidade, quase sobrevivência.

Há quem tente adaptar‑se ao tumulto, acelerando o passo, moldando a voz para caber no coro que grita. Outros percebem que não é possível viver sempre em estado de alerta — que não é saudável responder a sons que não escutam, a pressões que não reconhecem, a expectativas que não nasceram dentro de si.

Por isso, a reflexão torna‑se urgente: se os sons do mundo são tão altos que abafam o que sentimos, é preciso reaprender a ouvir.
Ouvir o que é nosso.
Ouvir o que é verdadeiro.
Ouvir o que não precisa competir com nada.

Talvez seja preciso desacelerar para perceber que, por trás de cada som gritante, existe uma história que tenta ser maior que a própria vida. E que, por trás de cada silêncio, existe uma força que não precisa de barulho para existir.

No fim, cada pessoa procura o seu próprio ritmo interior — um ritmo construído com cuidado e com silêncios. E, quando finalmente o encontramos, percebemos que o mundo pode continuar a gritar, mas já não nos arranca daquilo que somos.

É neste contexto que Carlos Pereira, vigilante de profissão e conhecido como Kamané, “músico‑terapeuta” nas horas livres, encontrou a sua frequência sem som — o 100 SOM, como gosta de chamar ao projeto que integra musicoterapia e usa a mímica como ferramenta de desinibição para uma expressão sem filtro.

A sua maior inspiração é a irmã Sónia, surda, que lhe ensinou a leitura labial. Com ela descobriu que o silêncio também comunica, que o gesto também fala, que o corpo também canta.

Nesse encontro entre som e ausência, Kamané percebeu que existe um mundo paralelo onde o silêncio não é vazio, mas presença. Um mundo onde a comunicação acontece pela vibração, pela intenção, pelo olhar atento.
É esse mundo que ele tenta revelar: um alerta para a poluição sonora, uma defesa do Silêncio Absoluto, uma proposta de consciência sonora que nos devolve ao essencial.

O projeto 100 SOM não é apenas prática artística — é cuidado.
Ao usar a mímica, Kamané convida cada pessoa a libertar‑se da vergonha, a experimentar o corpo como instrumento, a descobrir emoções que só se revelam quando o som se cala.

Nesta homenagem, reconhecemos a inovação de Kamané e a alegria que leva às pessoas ao permitir que experimentem, por um dia, o seu momento 100 SOM — falando e cantando através da mímica, sem extrair um único som.
Kamané surge como desafiador: um professor que ensina a apreciar o silêncio, a descobrir novas formas de comunicar e a olhar nos olhos de quem fala para realmente conhecer o seu locutor.

Para saber mais sobre esta homenagem, basta dirigir‑se à revista, na secção Homenagens, página 2.

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